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sábado, 6 de dezembro de 2014

Propina legalizada

O que acontece com os criminosos corruptos quando o crime é legalizado? Os grupos no poder vem tornando isso cada vez mais usual no Brasil. 

Houve tempos em que os bandidos infiltrados no poder eram confrontados na Justiça ou eliminados por parceiros. Podemos relembrar os mais visíveis da denominada Nova República, dominada pelos mais antigos vícios, tais como: PC Farias de Collor; anões do orçamento do sortudo João Alves e outras más companhias; Sérgio Motta na compra da reeleição de FHC; privatizações graciosas nos governos FHC; CPI das Empreiteiras que, tal a viúva Porcina, foi sem nunca ter sido; Celso Daniel, o Sombra e companheiros; vampiros e sanguessugas no Ministério da Saude; TRT de Luiz Estevão e o juiz Lalau; contas CC-5 no Banestado e noutros tamboretes; bancos Marka e FonteCindam de Salvatore Cacciola, "socorrido" pelos diretores do Banco Central; Sudam de Jarder Barbalho e cara-metade; mensalinho de Eduardo Azeredo em Minas; Correios de Roberto Jefferson, o detonador do esquema do Mensalão do poderoso José Dirceu e sua gangue; Operação Satiagraha de Daniel Dantas do Oportunity, Naji Nahas e Celso Pita; Operação Navalha de Zuleido Veras, dono da Gautama; máfia dos fiscais do PSDB paulista; Operação Lava Jato de Alberto Youssef, que desaguou na Petrobras e congêneres. É o atual petrolão, cujas investigações criteriosas, enche os brasileiros de esperança de um Brasil menos corrompido. 

Foram os gerentes do petrolão que inovaram a corrupção como: propina sob recibo e doações legais a partidos. Agora se escancara mais uma ação para "legalizar" o crime.
No ar, um mensalão de R$ 444 milhões, a ser legalizado pela aprovação do Projeto-Chantagem PLN 36/14, que visa livrar a presidente Dilma Rousseff das penas legais por irresponsabilidade fiscal. A liberação dos recursos para as emendas parlamentares pessoais, constantes no decreto nº 8.367/14, fica condicionada a aprovação do PLN 36/14 pelos parlamentares.(*) Esse exemplo de falcatrua legalizada se derramará em cascata aos estados e municípios em um liberô-geral que revogará na mão grande a Lei de Responsabilidade Fiscal.

Aos órgãos institucionais de polícia e de controle restará investigar as arraias miúdas e desafetos.


* < https://mail.google.com/mail/u/0/?pc=carousel-about-pt-BR#inbox/14a24857519955ed > 

  <  http://veja.abril.com.br/noticia/brasil/o-pt-fazia-o-diabo-nos-infernizamos >

terça-feira, 2 de dezembro de 2014

Verdadeira "derrama"

Que os impostos no Brasil são altos todos nós já sabemos. Atinge percentual próximo a 40% do PIB. Isto, quando traduzido, nos diz que o brasileiro trabalha cerca de cinco meses e meio para os soberanos cobradores de impostos. O que poucos entendem é porque são tão elevados! Isso, além de mimar os participantes do poder, pode ser considerado como uma forma de "reserva de mercado". Observo que quem paga todos os impostos não sobrevive no ramo de negócios. Não há rentabilidade para manter um negócio, pagando tudo o que está nas leis. É uma escorcha! Os negócios são bons e se tornam rentáveis apenas para aqueles que contam com as benesses de uma fiscalização corrupta, gozam das anistias fiscais concedidas sob medida pelos governantes... Desse modo, os amigos financiadores de campanha e de caixas 2, 3, etc., conseguem obter lucros. Os demais quebram... Só permanece nos negócios quem se submete e está "de bem" com os governantes. Se reduzir os impostos aumentará o número de empresas e a competitividade, beneficiando a todos os cidadãos de bem. Essa redução atrapalharia os contumazes amigos dos soberanos, o próprio e seu séquito. É só procurar saber quem são os privilegiados que não pagam dezenas de impostos e taxas... Alguém lembrou das contas-correntes "especiais" de pessoas físicas e jurídicas, montadoras, investidores, financeiras, empresas e bancos, agraciados com liberações, desonerações, incentivos fiscais... 

Com a louvável justificativa de reduzir os efeitos da crise financeira e manter o nível de emprego, o governo federal reduziu o IPI - Imposto Sobre Produtos Industrializados de fogões, geladeiras, lavadoras e de veículos, mesmo sabendo que é no Brasil que as montadoras multinacionais cobram os preços mais elevados e têm os maiores lucros. Ninguém sequer lembrou de reduzir o Imposto de Renda dos assalariados, aposentados e pensionistas. A escorcha na fonte é mantida. Não são ouvidos os apelos dos que não têm poder econômico suficiente para influir na opinião pública nem contribuir para as diversas caixinhas dos donos dos partidos. 

Há tempos permanece o aumento conjuntural-provisório da alíquota de 25 para 27,5% no IR, apesar dos contínuos recordes de arrecadação. E, assim, os menos aquinhoados que recebem R$ 4.643,82 pagam o mesmo percentual que pagam os que ganham mais de 33 mil, como os auto privilegiados parlamentares, ministros, desembargadores, juízes, etc, que dispõem de benefícios que o cidadão comum nem sonha existir. Este último tem que pagar em duplicidade por educação, plano de saúde, previdência privada, creche, segurança, etc, pois os serviços públicos deficientes e desorganizados não conseguem atender. 

Os impostos e taxas, disfarçados em dezenas de siglas e percentuais, somados, alcançam mais de 40% do ganho mensal da maioria dos assalariados! Bem superior aos 20% (*) da histórica "derrama", que provocou a revolta do povo brasileiro contra a Corte portuguesa. A Reforma Fiscal e Tributária hiberna no esquecimento, na pauta dos adiamentos... Quem usufrui dos privilégios não têm interesse de propor um sistema mais simples e justo, que permita reduzir impostos dos que recebem menos. Que tal o governo experimentar reduzir impostos sobre os salários de sobrevivência, para reduzir a miséria em geral e a crise econômica que atinge há tempos a nós outros, simples mortais?


(*) Toda produção na colônia Brasil era taxada em um quinto pela Coroa Portuguesa. Essa cobrança, considerada absurda, passou a ser chamada de “um quinto dos infernos”. 

Quando passaremos a chamar de "dois quintos dos infernos", o atual massacre de 40% imposto pelos governos federal, estaduais e municipais? 

quarta-feira, 26 de novembro de 2014

Pintando o alvo


Lembram do rei arqueiro, que mandava seus servos pintarem o alvo em volta da flecha já fincada? O governo faz-de-conta do PT também quer pintar o alvo. Luta com todas as armas para aprovar no Congresso alterações na LDO - Lei de Diretrizes Orçamentárias. Vale tudo para que os parlamentares aprovem matéria que tem como objetivo, evitar que a presidente Dilma seja enquadrada no crime de responsabilidade fiscal. Sabe-se que a meta de R$ 116,07 bilhões, definida para o superávit primário de 2014, ficou longe de ser alcançada. O artifício contábil, a ser legalizado no Congresso, seria o de eliminar a restrição para o abatimento máximo previsto em gastos do Programa de Aceleração de Crescimento - PAC e nas desonerações por renúncia fiscal que somam R$ 67 bilhões. Com isso o superávit primário seria reduzido para R$ 49,07 bilhões, mas nem isso o governo conseguiu. Sabe como é: Copa do Mundo, eleições, previsões fajutas, medidas econômicas ineficazes, superfaturamentos, propagandas, inflação, crise mundial... Com a mudança submetida a votação no Legislativo, os abatimentos "legais" não terão limites. Um liberô geral que afetará em cascata estados e municípios. As justificativas para a mudança é de que nem a economia nem as receitas cresceram como esperado. Os partidos e demais servos sabem que podem obter muitas vantagens do governo para aprovar essa mudança. Não dão quorum à votação para serem "convencido$" a comparecer. E o governo está disposto a dar todos anéis que forem necessários. A Petrobras já anunciou nova diretoria de Governança, Risco e Conformidade para escoar as demandas. Um órgão de auditoria permanente, ligado à presidência da empresa, faria melhor. Ministérios, secretarias e cargos comissionados também podem se multiplicar.
Mudam os malandros mas o modus operandi é o mesmo. Há quatorze anos escrevi sobre esse mesmo tema com o título "Ajustando as leis". A mudança política é lenta mas deve ser buscada sempre.

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AJUSTANDO AS LEIS

                                                                                         
Houve um tempo em que ficávamos indignados com os crimes praticado pelos abastados, autoridades e amigos do rei, por não serem divulgados pela grande imprensa. Tempo em que eram divulgadas mas não eram investigadas... Em que eram investigadas mas os culpados não eram punidos...

Agora, os crimes cometidos pelos políticos e autoridades constituídas nos três poderes da República, são de pleno conhecimento de todos mas nada acontece. Os resultados não vão além de choros, justificativas, emocionantes discursos, engavetamento de processo, esquecimento, extinção por decurso de prazo, liberação pelos tribunais e, finalmente, pagamento de indenização ao acusado, por danos físicos, morais e psicológicos, pelo Tesouro Nacional.

O atual sistema institucional está montado há tempos de modo que os que detêm o poder político e econômico não sejam incomodados pelas leis vigentes, feitas sob medida para isso mesmo. Entretanto, uma nova lei está no forno para reparar algumas brechas que possibilitaram que alguns parlamentares e nomes importantes dos poderes Legislativo, Executivo e Judiciário, chegassem a ser ameaçados de condenação.

A nova lei, urdida no Congresso Nacional, limitará as investigações e a competência da Polícia Federal e do Ministério Público. Melhor - para os bandidos -, remeterá aos tribunais ditos superiores, todos os processos contra pessoas consideradas "acima de qualquer suspeita". Pretende-se assim acabar com os constrangimentos a que foram submetidos cidadãos especiais, envolvidos nas
inúmeras falcatruas descobertas nesses últimos anos.

A campanha "popular" para o fim da CPMF faz parte do pacote. Esse imposto tem o grande defeito - além do elevado percentual de 0,38%, facilmente contornável - de indicar por onde andou e onde anda o dinheiro... Dica do garganta profunda de Watergate: Sigam o dinheiro! E, convenhamos, circular dinheiro em espécie em malas, caixas, cuecas, etc. não é muito confortável.


* Comentário veiculado na coluna Espaço do Leitor do jornal A TARDE de 07.08.2000, terça-feira, sob o título Impunidade reinante.

segunda-feira, 24 de novembro de 2014

Homo collector


Nada como dispor de um pouco de tempo para colocar as coisas em ordem. Nesse fim de ano, ao tentar me organizar, senti-me envergonhado. Caramba, como foi que consegui me encher com tantas tralhas! Armários, baús, gavetas, estantes, caixas, pastas... Tudo cheio. Se mais lugar tivesse, certamente, estaria entulhado de coisas que "um dia vou precisar".
O que constatei com esse fato não chega a ser uma conclusão, apenas uma reflexão.

Homo-collector e família - Em volta do fogo
Na evolução da espécie humana imagino um longo aprendizado pela sobrevivência. Os antropólogos e paleontólogos nomeiam as diversas etapas de acordo com esse aprendizado: homo erectus, quando os humanos aprenderam a se locomover sobre as duas pernas; homo habilis, quando aprendeu a usar e fabricar utensílios e armas. Ou em idades e eras de acordo com aprendizado no uso de alguns materiais: da pedra lascada, da pedra polida, do bronze e do ouro. Acredito, entretanto, que houve uma época em que aprendemos a coletar e guardar alimentos, coisas... E nos acostumamos profundamente a isso. Aprendemos a plantar, estocar, preservar e armazenar nossas conquistas e experiências, com a intenção de nos precavermos de futuras dificuldades, sempre presentes na obtenção de alimentos e outros recursos fundamentais à vida. Ainda hoje, quando a humanidade parece ter alcançado estágio da mais alta evolução tecnológica, continuo com esse comportamento que deve ter sido muito útil aos nossos antepassados: coletar e guardar.

Homo-collector na terra dos Faraós - Egito Antigo
O acervo de conhecimentos acumulado pela civilização é imenso. O depósito de obras e descobertas feitas ao longo da história tem hoje, através da informática, completa e quase instantânea disponibilidade. Entretanto, seu conteúdo já supera em muito a capacidade de aprendizado e compreensão do ser humano durante o seu tempo de vida. (E pensar que os filósofos gregos consideravam em sua época que tudo já havia sido inventado – a roda, as engrenagens, o parafuso-sem-fim, espelhos, lentes, aço resistente e outras tantas maravilhas – restando então aos homens apenas usufruir do merecido ócio.) Não significa que essa sabedoria esteja sendo utilizada em toda a sua extensão. Graves problemas ainda atingem a humanidade, em todas as partes do mundo, por faltar esses conhecimentos ou suas benéficas aplicações, como se pouco ou nada tivéssemos aprendido. Vejo que ainda estou no estágio do homo collector que, por medo - e necessidade - acumulava alimentos e coisas em sua caverna para usar em tempos incertos.

Hoje, temos geladeiras e freezers, supermercados a cada esquina, alimentos disponíveis a qualquer hora, mas ainda ajo como meus antepassados ou como animais coletores, tipo os esquilos (mas eles precisam para enfrentar o inverno), cães e lobos (enterrando ossos). Ou até pior, como as gralhas, acumulando bugigangas brilhantes e coloridas, sem qualquer utilidade para elas... Nem para mim, a não ser a controversa satisfação de possuir. Comemos demais tudo o que aparece, feito os ursos, que precisam acumular gordura para hibernar.

Será devido a esse instinto coletor, que meus armários estão entulhados de bagulhos que não uso, nem necessito? O guarda-roupa cheio com peças que nunca usei; a estante cheia de livros que ainda não consegui ler? Até meu HD está cheio de arquivos que estão disponíveis na Internet. João Paulo II considera o desperdício um pecado, um erro. Nos momentos de alguma lucidez acho o desperdício uma estupidez, uma burrice. E quando o desperdício está de mãos dadas com o egoísmo, é arranjo dos infernos! O que está sobrando aqui está fazendo falta em algum lugar. Qual a saída?

Creio que a solução apoia-se na confiança. Hoje, há uma grande economia nos custos de estocagem, devido à redescoberta da credibilidade, da confiança. Empresas de produção não mantêm mais estoques de matéria-prima e peças. Utilizam sistema informatizado - de entrega na medida em que o material é necessário - conhecido como just-in-time. Essa sabedoria precisa ser utilizada em todas as áreas de convivência e cooperação humana. Entretanto, o desenvolvimento da confiança no outro só poderá ser feito através de uma formação educacional focada nesse objetivo.

Já é um bom começo, reconhecer os malefícios da soberba, da competição, da autoestima exacerbada e outras carências afetivas, existentes no íntimo genético.

Homo-collector - Esquecendo o essencial
É o aprendizado da sabedoria que me permitirá desfrutar a felicidade de viver sem depender dos ícones de consumo, que a propaganda planta em minha mente. A lavagem cerebral nos acompanha por toda a vida, de tal maneira, que a liberdade só é possível sobre uma reluzente motocicleta, a paz, só em um apartamento de luxo e a admiração só é obtida com roupas de grife... Com as etiquetas à mostra!

Antes mesmo da bola-de-gude e da bicicleta, já elegia meus objetos de desejo. Mais adiante vieram: a garota, o carro, o diploma, o emprego, etc. Em cada um deles, depositei meu futuro, acreditando que "Agora sim, serei feliz!". E a cada conquista, nova decepção e a constatação de que falta algo mais a conquistar, possuir... Usufruir.

O risível - se não fosse uma tragédia para muitos - é que o desejado, perseguido e conquistado, não pode ser desfrutado, pois não nos "sobra tempo". Por isso, não posso nem desfrutar a cascata cristalina, fria ou quente, que disponho no banheiro, e muitas outras maravilhas que nem percebo ter. O que não esqueci ainda é que antes, para me banhar, puxava água no poço, enchia o latão - preparado após esvaziar o querosene na geladeira Electrolux – carregava-o até o banheiro, enchia o tanque e tomava banho de cuia. Conclusão: às vezes saía do banho mais suado do que antes.

A felicidade está na sabedoria de eu perceber que essas conquistas de nada servirão se eu não tiver paz e tempo para desfrutá-las. Perceber o quanto já disponho. Vida, razão, sentimento, alimento, ar, água, sol, terra, mar e todo o tempo do mundo: vinte e quatro horas por dia. Isso não é o que a propaganda - a inveja provocada - me diz que preciso. Vejo que ainda está muito latente em mim a memória instintiva do homo collector. Sabendo disso, exercito definir o que eu realmente preciso fazer para enfrentar, sem estresse, o impulso que me torna um coletor compulsivo. Tudo o mais pretendo deixar bem guardado nas lojas, feiras, supermercados, internet, natureza... E na lembrança.


Autor: José Renato M. de Almeida, pesquisador do conhecimento humano-social comparado ao conhecimento técnico-científico na história da humanidade.

* Leia uma crônica divertida sobre o homo colletor no link:
< http://primeirafonte.blogspot.com.br/2012/02/homo-collector-catando-frutinhos-dia.html >

As ideias não têm dono... Mas têm autoria.

sábado, 22 de novembro de 2014

Células-tronco

Em seu voto a favor do uso de embriões humanos para pesquisas em células-tronco em março de 2008, o então ministro do STF, Carlos Ayres de Britto, afirmou: "O embrião é o embrião, o feto é o feto e a pessoa humana é a pessoa humana. Esta não se antecipa à metamorfose dos outros dois organismos. É o produto final dessa metamorfose. É um ir além de si mesmo para se tornar um outro ser”. 
Parece-me que o brilhante ex-ministro Britto, se impressiona com vocábulos diferentes, criados para dar um entendimento didático ao fenômeno natural da gestação. Assim como ele, parece-me que muitos outros ainda não perceberam que nada - repito - nada é incluído ou acrescido à estrutura do DNA do embrião ou no do feto, para se considerar que eles são outros seres que não humanos. O embrião, assim como o feto e a pessoa humana, nos seus diversos estágios de crescimento, possui o mesmo DNA, próprio, único, com todas as características genéticas nele inseridas e já assumidas... Até a morte do ser.
Comparando, grosso modo, é como considerar a “metamorfose” ocorrida no aspecto do ser humano após o nascimento, como se fossem seres diversos, tipo: bebê, criança, adolescente, jovem, adulto, idoso...
Pois, é! E ainda nos surpreendemos com a escalada da violência que hoje afeta toda a nossa sociedade.


* Veiculado no jornal A TARDE de 07.03.2008, na coluna Espaço do Leitor.

sexta-feira, 21 de novembro de 2014

Mídia imparcial e a quadratura do círculo

Talvez por ingênua e esperançosa persistência, acompanho a busca do santo graal pelos profissionais da imprensa: a notícia eticamente correta. Nesse distante e improvável ideal, suponho que só poderiam ser divulgados os acontecimentos cabalmente comprovados com fotos, gravações de áudio e vídeo (ops!) e, de preferência, já transitados em julgado na última instância do judiciário, de modo que não houvesse qualquer possibilidade de divulgar uma notícia minimamente infundada. A mídia - através de seus profissionais e especialistas - pode até tentar, mas não conseguirá ser imparcial. Senão vejamos.

As empresas de comunicação são criadas para dar suporte a um grupo, a um partido, a um político, que precisam de exposição para alcançar seus objetivos. A parcialidade virá independentemente de ação ou omissão grosseira, como a da TV Globo na época das Diretas-Já. Virá na própria impossibilidade de veicular tudo o que pode ser noticiado e comentado. Virá na escolha da pauta principal, do noticiário coadjuvante, na forma, no enfoque e nos destaques. A parcialidade está lá, porque lá está um profissional da informação com opinião própria que dá forma e foco à notícia.
Não estamos falando da parcialidade criminosa ou da manipulação dos que distorcem os fatos, mas sim da parcialidade inerente a qualquer ser humano formado sob determinadas condições de pressão e temperatura social, cultural e política.

O poder exercido pelos meios de comunicação é concreto. As eventuais concessões feitas aos opositores e desafetos, são apenas formas de manter a credibilidade e ampliar sua área de influência, na velha esperteza de perder os anéis para manter a mão no poder principal. É a mídia que constrói a "realidade" da chamada opinião pública, formada por uma maioria que nela se abastece de informações. Os grupos de domínio sabem disso e usam todos os meios para obter o monopólio da informação da forma mais sutil, investindo na credibilidade.

Exemplos dessas tentativas de confundir os cidadãos estamos vendo e ouvindo diariamente. Daí a importância de mantermos uma atenção crítica e lúcida sobre o que é veiculado nos meios de comunicação. Principalmente na internet, onde todo tipo de armadilha são postadas junto com as demais notícias e informações. Mas é a própria internet que permite desmascarar essas manobras e tentativas de controle das notícias e desinformações por grupos de poder, empresas ou governos.

Dificilmente, uma notícia publicada estará livre de falhas e erros, isentas de intenções predeterminadas por deficiência de caráter ou por displicência profissional. Porém, a repercussão e o desenvolvimento do fato noticiado, mesmo sem a desejada imparcialidade, têm o dom de promover o debate democrático esclarecedor.  

domingo, 16 de novembro de 2014

Sob nova direção

Finalmente, foi dado continuidade à CPI das Empreiteiras, agora sob nova direção da Justiça, Ministério Público e Polícia Federais. Desde o assassinato do governador do Acre Edmundo Pinto de Almeida Neto no dia 17.05.1992, em um hotel de São Paulo, na véspera de seu depoimento na referida CPI, em Brasília - com contornos típicos de crime de mando, intimidação e queima de arquivo - a apuração do superfaturamento do Canal da Maternidade e de outras obras de vulto, ficaram para as calendas tupiniquins. Volta agora em um outro governo, diferente do daquele ano, com maior abrangência nos elevados escalões e nos montantes de recursos desviados, mas com a mesma perniciosa corrupção. Apesar de um dos três criminosos presos naquela época, Gilson José dos Santos, confessar que recebera dinheiro para cometer o crime, de ter sido alvo de novas investigações na CPI da Pistolagem (1992/1993) e da possibilidade para reabertura do caso em 2003, nada foi concluído e nenhum corrupto foi julgado ou condenado. 
A maioria dos parlamentares tem se revelado investigadores de meia-tigela, mas hábeis na arte de extorquir empresários, blindar empreiteiras, corruptos e corruptores, em proveito próprio... Pelo menos, até a essa altura da história da República pós-regime militar. Já cansaram os cidadãos das suas onerosas dissimulações, discursos teatrais e jogos de cena... Basta! 
Nossas esperanças renascem agora na pessoa do Juiz da 13ª Vara Federal de Curitiba, Sergio Fernando Moro, que mesmo sob intensas ameaças do crime organizado, infiltrado nas instituições democráticas do País, desenvolve com bons resultados os trabalhos de apuração do esquema de corrupção na Petrobras. 
Considero fundamental nosso apoio explícito aos que como ele lutam para livrar o Brasil da corrupção institucionalizada. Essa disposição pode barrar medidas tomadas pelos criminosos contra essas pessoas. Isso já aconteceu com o Juiz Federal Fausto Martin de Sanctis, especialista em crime organizado, lavagem de dinheiro, narcotráfico e liberalização das drogas, quando titular da 6ª Vara do Tribunal Federal de São Paulo - hoje desembargador em uma câmara previdenciária, bem longe da sua especialidade, o crime - e também com o delegado da Polícia Federal Protógenes Queiroz - hoje deputado federal, não reeleito -, ambos perseguidos e destroçados(*) após investigarem, enquadrarem e prenderem o banqueiro Daniel Dantas, o especulador Naji Nahas, o contrabandista Law Kin Chong, o ex-prefeito de São Paulo Celso Pitta (1997-2000) e de outros 14 acusados de corrupção na Operação Satiagraha.

* O livro "Operação Banqueiro", do jornalista Rubens Valente (Geração Editorial - 2013), detalha toda a trama, de como o juiz De Sanctis e o delegado Queiroz passaram de acusadores a acusados, engendrada por deputados, desembargadores, ministros do STF...

** O livro "Operação Satiagraha", lançado por Protógenes Queiroz em fev.2014, traz mais detalhes por parte de quem protagonizou a primeira grande ação contra o crime organizado de colarinho branco. Veja também: < blogdoprotogenes.com.br >.

# Reveja as armadilhas e artifícios utilizados pelos bandidos para anular o julgamento e a condenação dos investigados na Operação Satiagraha, no link:
http://www.conversaafiada.com.br/politica/2014/11/21/lava-jato-baiano-chama-fhc-dancar/

## "Provas documentais vindas da Suíça e da Holanda, com aval do Departamento de Justiça dos EUA (que investiga a Petrobras) serão letais para os corruptos. [...] Tal avaliação foi feita por um grupo de magistrados que acompanha, em Berlim, na Alemanha, os desdobramentos imediatos do cumprimento, desde ontem, dos 85 mandados judiciais de prisão ou coerção temporária e mais 123 ordens de busca e apreensão de documentos em grandes empreiteiras suspeitas de superfaturar margens de lucro em obras e serviços com o governo, principalmente nos contratos com a Petrobras, para distribuir corrupção a políticos, lavando bilhões de dólares no Brasil e no exterior." (Jorge Serrão) 

Leia mais em: < http://www.alertatotal.net/2014/11/estrategistas-do-pt-avaliam-que-dilma.html >

### A Folha publicou comentários do ministro Marco Aurélio Mello, contra a existência no STF de processos tão secretos que nem constam na relação do tribunal. Leia em: http://www1.folha.uol.com.br/poder/2014/12/1556725-marco-aurelio-mello-critica-processos-ocultos-no-stf.shtml

### A Folha